E o sertão virou mar

Políticas da União
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Povo nordestino faz a festa com a chegada da água da transposição do Velho Chico. Reservatórios viraram áreas de lazer

Os 716 mil moradores da região metropolitana de Campina Grande, na Paraíba, são os novos beneficiados pelo projeto de Integração do Rio São Francisco. No dia 13, as águas chegaram ao reservatório Epitácio Pessoa, localizado no município de Boqueirão, que vai abastecer a população de 18 municípios.

O ministro da Integração, Helder Barbalho, destacou o esforço do governo federal em cumprir o cronograma que garantia a chegada dos recursos hídricos em abril. “Ver a água chegando traz a certeza de que todos que já sofreram podem ter um futuro novo de prosperidade, de produção e qualidade de vida”, disse o ministro.

Nas próximas duas semanas, o governo da Paraíba reforçará as captações necessárias para levar água também aos moradores de mais 17 cidades: Barra de Santana, Caturité, Queimadas, Pocinhos, Lagoa Seca, Matinhas, São Sebastião de Lagoa de Roça, Alagoa Nova, Boqueirão, Boa Vista, Soledade, Juazeirinho, Cubati, Pedra Lavrada, Olivedos, Seridó e Cabaceiras.

Depois do reservatório Boqueirão, a água continuará seguindo o curso do rio Paraíba até a barragem Acauã, para beneficiar ainda mais 132 mil habitantes em mais 12 cidades paraibanas, por meio de sistemas de distribuição de água já implantados. São elas: Aroeiras, Gado Bravo, Itaituba, Ingá, Mogeiro, Juarez Távora, Itabaiana, Salgado de São Félix, São José do Ramos, Pilar, Juripiranga e São Miguel de Taipu. O primeiro município paraibano que recebeu a água do rio São Francisco foi Monteiro, com 33 mil habitantes. Em Pernambuco, Sertânia, com 35 mil moradores, está sendo contemplada. No total, o Eixo Leste conduz as águas do Velho Chico por 217 quilômetros, entre canais, seis estações de bombeamento, aquedutos e túnel.

A captação do rio é realizada no lago de Itaparica, entre os municípios pernambucanos de Floresta e Petrolândia. De lá, a água passa por mais duas cidades nesse mesmo estado: Custódia (PE) e Sertânia (PE), antes do seu destino final, na Paraíba.

As águas que chegaram ao reservatório Epitácio Pessoa, no município paraibano de Boqueirão, vão abastecer a população de 18 municípios

EUFORIA

No semiárido de Pernambuco e Paraíba, região consumida pela seca há seis anos, a grande atração tem sido a água. Mais especificamente a água que, desde a virada do ano, foi preenchendo os 217 quilômetros do Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco. Ela sai da represa da Usina de Itaparica, formada pelo Rio São Francisco, na divisa da Bahia, atravessa quatro municípios de Pernambuco – Floresta, Betânia, Custódia e Sertânia – até desembocar na cidade de Monteiro, na Paraíba.

À medida que a água avançou, primeiro na beira de povoados, depois nas cidades maiores, foi recebida com deslumbramento. Famílias inteiras vestem roupas de banho e mergulham nas represas da Transposição. Os mais audaciosos se jogam no canal, mesmo sem ter noção da profundidade. O gesto mais trivial por lá é tirar selfie com a água. “A gente faz a foto para registrar e acreditar que não estamos imaginando: olha aí, a água do Chico chegou. Depois de séculos, mas chegou”, diz Rafael Barbosa dos Santos, 26 anos, desempregado, que junto de uma amiga, a técnica de enfermagem Raquel Simplício dos Santos, 31 anos, se autofotografava no final da Transposição, em Monteiro.

No último mês, não faltaram episódios para ilustrar o surto de euforia. No município de Floresta, dois nadadores morreram afogados. Em Sertânia, os banhistas ocupam as represas, sem a menor cerimônia, desde o carnaval. “É impressionante, no domingo, vira o piscinão, a prainha de uma quantidade absurda de pessoas”, diz a comerciante Iranuedja Moreira de Aquino, 42 anos, que se espantou quando foi ver com os próprios olhos a aglomeração. Seu marido, Paulo Cesar Santana, 50 anos, tem uma justificativa para o descontrole coletivo. “Quando a gente, que vive na estiagem, vê uma represa cheia, se sente como ganhador da Mega-Sena, não qualquer Mega-Sena, a da virada.”

Muita gente vestiu roupa de banho e foi mergulhar nos reservatórios. Águas viraram fonte de lazer para a população

ACIDENTE

Há uma semana, a água ensaiou uma tragédia. O reservatório Barreiro, em Sertânia, se rompeu. A força da água foi tão violenta que abriu uma cratera na pista da rodovia quilômetros à frente. As causas estão sendo apuradas, mas quem mora no entorno conta que o reservatório encheu rápido demais. Na véspera do acidente, dava a impressão de que iria transbordar.

O auge do encantamento ocorreu no dia 7 de abril, em Monteiro, na cerimônia de inauguração do Eixo Leste. A cidade já estava mobilizada pela manhã. O casal Aldo Lídio e Luciana Ferreira levou os filhos Abraão, de 10 anos, e Sara,       quatro, para a borda da Transposição. “Queremos participar desse momento histórico”, disse Aldo. E foi de tirar o fôlego. Um jorro de água eclodiu da Transposição e promoveu o milagre da engenharia hidráulica: o leito estorricado do rio Paraíba, vazio há seis anos, foi inundado em minutos. Tornou-se tão caudaloso que ninguém na multidão, assombrada com o feito, teve coragem de mergulhar. O rio Paraíba é estratégico. Alimenta os principais açudes do Estado e cheio vai tirar centenas de municípios do racionamento.

DESERTO

O entorno do Eixo Leste da Transposição é desolador. São centenas de quilômetros de desertos, preenchidos por arbustos retorcidos, terra ocre, rios secos e rebanhos de cabras magras. As poucas manchas verdes são plantações de palma, tipo de cacto que alimenta o gado. A região sempre foi pouco desenvolvida, já que agricultura, indústria e urbanização só prosperam com garantia de água. E a prolongada estiagem fez dessa carestia uma rotina insustentável para os padrões de vida no século XXI.

Luiza Aurélia da Silva, 68 anos, moradora do assentamento Serra Negra, em Floresta, passou a infância buscando água em lata, na cabeça e em lombo de burro. Saía ao amanhecer e voltava na hora do almoço. Hoje, as 64 famílias do assentamento são abastecidas por um poço de água salobra e por carros-pipas da prefeitura. Parte da comida vinha do cultivo de feijão e milho. “Como não chove, todo ano a gente planta e perde quase tudo”, conta Luiza.

Mas quis Deus, diz ela, que a Transposição passasse do lado do assentamento. A sua casa está a poucos metros do canal. A expectativa por lá é que haverá irrigação para o plantio de culturas comerciais, como a melancia, viabilizando uma vida nova. “Um hectare irrigado vale mais do que 10 secos. Meu tempo passou, mas meus filhos e netos poderão ter uma vida melhor”, diz Luiza.

A falta de água, porém, não é problema apenas de comunidades pobres e isoladas. Entre os moradores do semiárido não se fala em outra coisa: que o governo acelerou a conclusão da Transposição Leste para evitar o colapso no abastecimento do polo econômico de Campina Grande e mais 18 cidades. Na área, vivem 800 mil pessoas. Todas dependem do açude Epitácio Pessoa, conhecido como Boqueirão. Hoje está no volume morto, com 3% de água.

O garçom José Gonçalves, 67 anos, lembra que até Juscelino Kubitschek inaugurar o Boqueirão, nos anos 1950, os moradores de Campina Grande tiravam água de um chafariz. Gonçalves recorda que ele mesmo carregava galões. Com o crescimento da cidade, aquilo parecia ter ficado para trás. Há um ano, o desabastecimento voltou: ele teve de reequipar a casa com uma caixa d’água adicional e baldes de 100 litros, além de manter um estoque com 12 galões de 20 litros de água mineral para fazer comida. “Agora, só o rio São Francisco nos salva”, diz ele.

O ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, nega que o cronograma de obras foi acelerado para atender a uma única cidade, mas confirma que Campina Grande havia se tornado uma preocupação do governo. “A informação é que em setembro a água vai acabar, mas como o volume morto já é uma reserva comprometida, a cidade poderia ficar sem água a qualquer momento”, disse. Barbalho lembra que a Transposição é apenas um ponto de partida. Várias obras adicionais, como o Ramal do Agreste e o Ramal Juá, estão em andamento para criar, enfim, uma rede segura de abastecimento contra a estiagem.

 “Ver a água chegando traz a certeza de que todos que já sofreram podem ter um futuro novo de prosperidade, de produção e qualidade de vida”

Helder Barbalho, ministro da Integração Nacional, ao vistoriar a obra.

Como isso depende de obras adicionais, de saneamento e encanamento, os moradores da região ainda estão preocupados. “Nossa pergunta agora é: quando a água do São Francisco chega às torneiras?”, pergunta a comerciante Gilvanete Pires, 53 anos, proprietária de um café em Monteiro. Para fazer a limpeza do estabelecimento, ela gasta, por semana, mais de R$ 300 em água de carro-pipa. Também precisa desembolsar R$ 50 com tambores de água mineral para preparar as refeições que serve na hora do almoço. Todos os meses, recebe a conta de água, apesar de não receber uma gota. São mais de R$ 200 por mês.

O agricultor José Severino da Silva Irmão, o Zequinha, tem a mesma preocupação. Em um sítio da família, em Sertânia, ele cria um bezerro, duas vacas, três bois, seis cachorros e 17 jumentos, que recolheu na estrada porque ninguém mais os queria. Hoje, ele busca água no vizinho e colhe mandacaru para engrossar a ração. Mas se a transposição regularizar o abastecimento dos açudes, ele poderá garantir uma alimentação melhor para os animais e ampliar o rebanho. “Por ora, a única coisa que a Transposição nos dá é alegria – alegria de ver a belezura da água.”

OBRA

O projeto de Transposição do Rio São Francisco tem dois eixos: o Norte, em fase de conclusão, com 260 quilômetros, e o Leste, com 217 quilômetros, inaugurado no dia 7. O projeto basicamente prevê a captação e o transporte da água do rio com a utilização de canais de concreto, galerias subterrâneas, bombeamento hidráulico e a criação de reservatórios, de forma a garantir o abastecimento de rios e açudes nas áreas mais secas do Nordeste. A obra foi iniciada em 2007, sob forte oposição, especialmente de ambientalistas. A previsão inicial é de que seria concluída em três anos, em 2010, ao custo de R$ 6,6 bilhões.

Consórcios com grandes construtoras, como OAS, Mendes Júnior e Galvão Engenharia eram responsáveis pela obra. Em 2013, porém, foram substituídas sem que tivessem concluído os trabalhos. Até agora, o projeto já consumiu quase R$ 10 bilhões. A previsão é que o trecho Norte seja entregue até o fim deste ano.

Codevasf leva tratores a municípios baianos

Para facilitar a convivência com a estiagem e melhorar a produção rural, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) investe R$ 3 milhões em tratores e equipamentos para 430 famílias de produtores rurais na região do Médio São Francisco baiano. O recurso está garantindo 28 tratores igualmente equipados para associações comunitárias rurais e prefeituras de 17 municípios da área de atuação da 2ª Superintendência Regional, sediada em Bom Jesus da Lapa. As entidades beneficiadas pela ação são a Associação de Desenvolvimento Comunitário do Município de Bom Jesus da Lapa, Associação Beneficente de Palmeiras, do município de Central; a Associação Comunitária dos Pequenos Produtores Rurais da Fazenda Rio Grande II, do município de Cotegipe; e a Associação Comunitária da Mata, do município de Wanderley. “A Codevasf está cumprindo seu papel de desenvolvimento da região do Médio São Francisco baiano. É de fundamental importância possibilitar a melhoria de vida das comunidades ribeirinhas e toda a comunidade do semiárido, essa região tão sofrida. Sem sombra de dúvidas, é um grande avanço que essas comunidades terão na produção agrícola”, diz Harley Nascimento, superintendente regional da Codevasf em Bom Jesus da Lapa. Os recursos vão beneficiar agricultores vinculados a associações comunitárias dos municípios de Bom Jesus da Lapa, Central, Cotegipe e Wanderley. “O trator vai melhorar muito o nosso trabalho, tanto dos associados como da comunidade local, em tarefas como arar a terra, colocar grades e carregar nossa produção”, diz Orlandina Tarrão, presidente da Associação Beneficente de Palmeiras, do município de Central, que produz principalmente milho e mamona. “Nós não tínhamos uma máquina para trabalhar e, com um trator como esse em nossas mãos, vamos poder produzir mais, fazendo com que a associação cresça. Nós vamos utilizar mais para arar as nossas terras”, ratifica Edivaldo Pomponet, presidente da Associação Comunitária da Mata, do município de Wanderley. Os outros municípios a serem contemplados na região são Baianópolis, Barra, Barreiras, Bom Jesus da Lapa, Central, Cotegipe, Irecê, Lapão, Oliveira dos Brejinhos, Paratinga, Santa Maria da Vitória, São Desidério, São Félix do Coribe, Serra Dourada, Tabocas do Brejo Velho, Urandi e Wanderley.

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