Momentos difíceis no cenário político e econômico global

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Crise política na Venezuela: país vive um dos piores momentos de sua história, com queda na receita em razão do baixo preço do petróleo e muita insatisfação popular manifestada nas ruas

Estados Unidos

O presidente norte-americano Donald Trump exibe, nos seus primeiros cem dias de administração, os menores índices de popularidade dentre todos os presidentes. Nos dias 6 e 7 de abril, em uma de suas residências, a famosa Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida, Trump se reuniu com o presidente da China, Xi Jinping, e com os principais ministros dos dois países. A despeito do linguajar hostil durante a campanha presidencial em 2016, os dois presidentes aparentemente se relacionaram bem. O presidente Trump acusava a China de manipular o câmbio e praticar políticas comerciais injustas que eliminavam milhares de empregos dos norte-americanos e levavam a um permanente déficit na balança comercial entre os dois países, beneficiando a China.

A ideia do presidente Trump em seu encontro seria conseguir do presidente chinês a garantia de influenciar o seu aliado da Coreia do Norte, Kim Jung-Un, que vem ameaçando usar seus mísseis nucleares contra a Coreia do Sul, Japão e os Estados Unidos, a uma mudança de política. O jovem ditador norte-coreano é visto como uma figura volátil e que põe em risco a segurança mundial, particularmente a dos Estados Unidos e de seus aliados na Ásia. Com a crescente demonstração de material bélico e a posse de armas nucleares por parte dos norte-coreanos, a melhor alternativa será cultivar o diálogo e procurar uma saída diplomática, utilizando o poderio da China para dissuadi-los. Como diria o estadista britânico Winston Churchill, conversar é melhor que guerrear.

A região também teme que a decisão unilateral do governo Trump de não assinar o Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, na sigla em inglês) poderá ter um impacto adverso sobre as relações comerciais dos países banhados pelo Oceano Pacífico e que a China poderá aproveitar o vácuo de poder deixado pelos norte-americanos para se impor. Saliente-se que o acordo em formação entre onze países não contava com o apoio do candidato de esquerda do Partido Democrata, senador Bernie Sanders, e da candidata oficial daquele partido, Hillary Clinton, que confessou que também não o assinaria.

O movimento trabalhista nos Estados Unidos não disfarçava sua preocupação com a possibilidade do acordo, temendo a perda de emprego local para a mão-de-obra barata nos países asiáticos, como a China e o Vietnan. A verdade é que a automação representa um desafio aos empregos nos Estados Unidos, bem como na Europa e América Latina, com a ampla utilização de robôs no setor manufatureiro e de serviços, além de carros autônomos (sem motoristas) e outras formas eficientes de poupar mão de obra e que surgem diariamente.

Outro temor constante é a reversão de expectativas quanto às relações entre o governo norte-americano e o russo, cujas promessas de campanha não estão encontrando eco na realidade. As relações de trabalho, que se deterioraram devido às posições diversas das duas potências no conflito sírio durante o governo do presidente Barack Obama, não melhoraram na era Trump, particularmente após o bombardeio com mísseis pelos norte-americanos em base aérea síria, seguindo um ataque com armas químicas atribuídas ao governo do presidente Bashar al-Assad.

O secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson afirmou que as relações de trabalho entre eles estão no pior nível possível. Tanto o presidente russo, Vladimir Putin, quanto o seu ministro de Relações Exteriores, o experiente Sergei Lavrov, são da mesma opinião. O presidente Putin afirmou que… “o nível de confiança em nossas relações de trabalho, particularmente quanto às questões militares, não melhorou e, provavelmente, piorou.”

O senhor Tillerson, escolhido por sua experiência anterior com o governo russo, quando era executivo do grupo petrolífero Exxon Mobil, admitiu que muito está para ser alcançado entre as duas potências nucleares, enfatizando que o relacionamento não poderá continuar como no presente. No mundo atual, a diplomacia deveria ser o instrumento preferido para sanar conflitos e é preocupante          que os principais países ainda cambaleiem em suas decisões. Os conflitos localizados e as ameaças terroristas em vários continentes inspiram sérios cuidados.


Trump e Xi Jinping

Trump e Xi Jinping: presidente americano tenta convencer colega chinês a influenciar o aliado, a Coreia do Norte, que vem ameaçando usar mísseis nucleares contra Coreia do Sul, Japão e EUA


União Europeia

Em 25 de março, a União Europeia (UE) celebrou os 60 anos da sua fundação pelo Tratado de Roma, em reunião em Roma, com 27 chefes de Estado (excluindo a chefe de Governo da Grã-Bretanha, que em 29 de março apresentou pedido de desligamento do bloco, após mais de 40 anos). O Papa Francisco foi um dos convidados. Os dirigentes discutiram o futuro da comunidade, que vem sofrendo desafios com os programas de austeridade implantados desde 2008, alta taxa de desemprego e profundas divisões devido ao crescente processo migratório e de refugiados, nos últimos dois anos. As negociações para a saída da Grã-Bretanha deverão se arrastar nos próximos dois anos e deverão se iniciar em setembro, após as eleições gerais na França e na Alemanha.


União Europeia

O Papa Francisco participou da celebração dos 60 anos da fundação da União Europeia (UE) pelo Tratado de Roma, em reunião na capital italiana, com 27 chefes de Estado


A primeira-ministra britânica Theresa May apresentou uma carta conciliatória ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, almejando um bom acordo entre as partes que beneficie as populações do Reino Unido e do resto da União Europeia. Propôs uma parceria e que continuem aliados, seja nas relações comerciais ou em outros aspectos do relacionamento. Contudo, os líderes europeus responderam que nenhuma negociação seria possível sem que o Reino Unido pagasse uma alta quantia para fazer face aos compromissos assumidos no passado.  Para a maioria dos eleitores que preferiu deixar o bloco, a proposta seria uma forma de castigo e não deveria ser aceita. Muita água vai correr nestas negociações.

Os membros da comunidade aproveitaram a decisão da primeira líder da Escócia, Nicola Sturgeon, cuja Assembléia Legislativa votou por um segundo referendo para a independência do Reino Unido, para impor maiores barreiras à saída. Ademais, incluíram no mapa de negociações a possibilidade de veto pelos espanhóis em função da disputa pela soberania do território de Gibraltar. A população de Gibraltar, embora tenha votado para permanecer na EU, votou (99%) para permanecer como território britânico. Gibraltar foi cedida por acordo internacional ao Reino Unido há mais de 300 anos. Espera-se que os negociadores se mantenham calmos e possam chegar a um acordo que não divida mais ainda os diversos blocos.

A interferência no processo democrático e na soberania dos países é um dos pontos básicos que deram origem ao plebiscito popular britânico de 23 de junho de 2016, resultando na aprovação pelo desligamento. Os movimentos populistas crescem em toda a Europa; o euroceticismo e a oposição ao gerenciamento local pela burocracia de Bruxelas têm inspirado movimentos de secessão na França, Suécia, Polônia, Dinamarca, Países Baixos e Itália. As propostas que visam a ajustar a União Europeia às demandas das populações dos países-membros foram discutidas em Roma e, se falharem em adotá-las rapidamente, outros países poderão seguir o caminho tomado pela Grã-Bretanha. As reformas políticas e econômicas não podem ignorar os protestos por menor centralização e burocracia e pelo desvio dos objetivos da União. Afinal de contas, as populações são excluídas das decisões e não votaram pela criação de um super Estado.

Venezuela

Considerada até pouco tempo a jóia da América Latina, com sua renda per capita superior à dos demais países latino-americanos, a Venezuela encontra-se em um dos piores momentos de sua história, em termos econômicos e políticos. A queda no preço do petróleo, em termos globais, maior riqueza e fonte de receita do país, provocou um efeito-dominó nas finanças governamentais e da população. Como não imitaram a Noruega, outro país exportador, que criou um fundo de reserva para os dias chuvosos, quando seus cofres estavam cheios, a Venezuela viu-se afetada por problemas políticos, econômicos e sociais. Recentemente, o governo bolivariano do presidente Nicolás Maduro suspendeu a Assembleia Nacional que fora eleita com maioria oposicionista. A Corte Suprema de Justiça instigou um golpe dando maior poder ao presidente e cassando os direitos políticos dos congressistas.

A condenação internacional e local fez com que tal processo fosse revertido. Os governos da Argentina, Brasil, Colômbia e México criticaram a tentativa do governo venezuelano de sobrepujar a vontade da população que elegera seus representantes parlamentares. A Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou a inconstitucionalidade da medida e os parceiros do Mercosul expressaram sua preocupação quanto à falta de democracia naquele país. O presidente argentino, Mauricio Macri, foi enfático em afirmar que o governo venezuelano não poderia ser considerado democrático e solicitou que se restaurassem os direitos políticos do líder opositor e governador do estado de Miranda, no centro do país, Henrique Capriles, suspenso por 15 anos, sob a acusação, pela Controladoria-Geral da Venezuela, de alterar o orçamento do Estado. Ele seria o principal candidato de oposição nas próximas eleições presidenciais de 2018.

Manifestações populares acontecem diariamente e são coibidas pelas forças governamentais, a escalada de violência é preocupante. Com população de 31,3 milhões, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a economia da Venezuela sofra uma queda de 4,5% este ano. A taxa de inflação atingiu 475% em 2016 e o FMI estima em 1.660% em 2017. As filas para comprar alimentos e medicamentos são uma constante. A taxa de desemprego em abril deste ano estaria em 7,3%, segundo a revista The Economist. A mesma revista publica, no anuário The World in 2017, que a renda per capita continuaria como a mais alta na América Latina e estimada em 24.643 dólares em 2016 (a do Brasil seria, 9.563 dólares).

]A desigualdade de renda na Venezuela é muito acentuada, a despeito dos programas sociais e de habitação, promovendo a classe de menor renda, executados pelo falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013) e pelo atual presidente. A Venezuela detém a segunda maior reserva de petróleo do mundo. Mesmo com vastos recursos, a população luta para sobreviver e a má administração do governo só torna a situação mais calamitosa.

Equador

O partido governista do líder de esquerda e governador do Equador, Rafael Correa, venceu o segundo turno das eleições presidenciais em 2 de abril, embora a oposição conteste a eleição de Lenín Moreno. O presidente eleito prometeu manter as políticas do seu antecessor, em clima tenso. O país convive com alta taxa de desemprego, dividido politicamente, e sofre um processo recessivo, devido à queda continuada nos preços do petróleo. Com população de 15,9 milhões, a economia deverá sofrer mais um recuo (-1,3%) em 2017, de acordo com a revista The Economist (The World in 2017). A renda per capita em 2016 era de 6.413 dólares.


Lenín Moreno

Lenín Moreno, do partido governista do líder de esquerda e governador do Equador, Rafael Correa, venceu o segundo turno das eleições presidenciais de 2 de abril, mas o país saiu dividido das urnas


Em termos de América Latina, estima-se (The Economist, 18-24 março de 2017) que a maioria dos países apresente taxa de crescimento positiva em 2017, a saber: Argentina (2,7%), Brasil (0,7%), Chile (1,8%), Colômbia (2,4%), México (1,6%) e Peru (em torno de 2% a 3%, a despeito de ter sido severamente castigado por fenômenos climáticos recentes).

Michael Kain é economista e cientista político graduado pela Universidade do País de Gales. É pós-graduado pelas universidades de Manchester e Cambridge.

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